|
— Ilusões
Alegria e miséria O fogo é o mesmo Os olhos são diferentes — Temperança
Seja o mais habilidoso de todos os espadachins Mas não use sua espada. Não mate. Assim será o mais habilidoso de todos os espadachins — 26/12/2012
Me encontrei em uma situação inusitada. Adotei um gato negro por piedade. Se o deixasse na cidade morreria. Fazia um frio excruciante e a neve era incessante. Mas não eram esses os maiores problemas do felinumano, eram as pessoas. Elas julgavam sua escuridão como algo maligno, demoníaco até. Muito provavelmente eles o matariam antes do frio. As pessoas são o inverno da vida. Afinal, elas não compreendem que um gato negro possui imenso poder. O gato é humilde com relação ao seu poder e, por isso, nunca o usa. Pensando melhor, acho até bom que as pessoas se afastem de um gato… As pessoas… elas ainda não compreenderam que o verdadeiro demônio são elas próprias. Patético. Trouxe-o à minha casa e cuidei dele. Na solidão ele se tornou mais ativo. Nunca fugiu de casa, suspeitei que algo o prendia ali. O que me trouxe a revelação da sincera fidelidade felina. Era reservado, calado. Ficava lá, em seu mundo, me deixando cuidar de minhas coisas. Mas, o mais interessante, era um gato que se fazia presente através do vazio… Ele possuía uns hábitos pouco comuns a população normal de felinos… estranhos… Às vezes, quando estava almoçando à mesa, ele se sentava no lado oposto ao meu. Sua pose era de uma nobreza inconfundível. Se fosse humano na certa se trataria de um guerreiro ou soldado. Circunspecto, calado, vigilante, imponente. Parecia carregar uma armadura de aço em volta de sua presença espectral. Me olhava cortante, diretamente, com absoluta inteireza. Parecia querer me dar algo… Outras vezes deitava-se lascivo no sofá. Se antes ele era duro por fora agora era flexivo como a água. Parecia ser capaz de uma levitação, um desaparecer-se… Que gato era esse que aos meus olhos destreinados me parecia mais humano que eu? Se era duro por fora sentia uma leveza interior tão harmônica, tão profunda, que quase caía naqueles muros de aço, irracionalmente assim como uma mosca é eletrocutada em uma daquelas lâmpadas azuladas. Se era flexível por fora tinha tanto ferro por dentro que sentia medo… medo de correr até ele e me cortar toda, me partir em pedaços como quando um vidro se espatifa no chão. Procurava a verdade naquela inteireza, mas nunca tive a coragem de querer ser a verdade. Tinha medo de enlouquecer naquela humanidade. Mas o mais amedrontador era quando ele parava em frente a qualquer porta ou janela e olhava fixamente para um único ponto. Tinha a certeza de estar na presença de algo incognoscível, imenso, irracional. E eu ficava paralisada de medo. Não consigo lembrar, não importa quanto esforço dedique, do que pensava. É quase como a neve que cobre a terra no inverno: vê-se apenas o branco superficial, mesmo tendo a certeza de ser muito mais profundo do que aquilo. Ficava assim, até o gato decidir me tirar de minha estupefação, minha contemplação interior, olhar para mim e desfazer o encanto. Nesses momentos tinha a certeza de que ele seria capaz de falar e, se falasse, seria com a língua dos anjos. O gato parecia que diariamente desejava encontrar… não, não só encontrar como me mostrar urgentemente algo. E eu sentia no meu íntimo que minha alma seria recomposta. Que eu então me tornaria da parte quase enlouquecedora da humanidade. Aquela parte que chamamos de verdade… E temos tanto medo de possuir. Uma verdade tão óbvia, tão pulsante, uma salvação que quase se transforma, linguisticamente, em não-salvação. Um emergir sem sequer ter submergido: um integrar totalizante dos sentidos a ponte de desconstruir as fibras do meu corpo… E eu tinha medo de me tornar não-ser. Nesse ensinar desensinando-se que se passaram meus 3 meses com o gato. Me lembro apenas do que aqui relatei, sinto que aconteceram várias outras coisas tão enlouquecedoras ou de uma clareza tão singular que meu cérebro primitivo (aquele repleto de vícios e egoísmo) se desesperou em perder-se e anulou toda a minha memória. E o gato fugiu… fiquei sabendo depois que eles fogem quando estão para morrer. Eles fogem de si mesmos. Um ato que os humanos, sarcasticamente, chamaram de misticismo estúpido, primitivismo ignorante… e assim eles próprios se tornaram seus próprio escárnio. Também conheci os antigos donos. Eles falaram que o gato havia fugido deles. Era uma padeira e um ferreiro que trabalhavam na cidade. Perguntei o nome do gato, visto que durante esse tempo todo simplesmente o chamava de “gato”, e me disseram que ele se chamava Prometeu. Voltei para a casa e fiquei a contemplar o vazio como ele, o humano-gato, fazia. Pensando bem, não tenho certeza sequer da existência dele. Às vezes chego a pensar que tudo não se passou de um devaneio de mim para mim mesma ao observar um anúncio na cidade que dizia: “Procura-se Prometeu”. Mas eu não consigo me lembrar de nada… nada. -Amélia Strongarde— Despensar-se
“I keep coming back for more (Player One – Machinae Supremacy) Era o último dia de aula. Daqui a dois dias o vestibular, pensou. Finalmente tudo se acabará. Ele até prometeu ver seus amigos durante as férias!… Se ao menos eles fossem seus verdadeiros amigos… Ele só queria se ver livre deles, não lhe interessava mais nada proveniente daquele colégio… nem muito menos as pessoas: a escola é uma excelente desconstrutora de humanos. Mesmo com toda a felicidade do fim, se sentia intrigantemente irritado: a memória é o erro da lembrança. “Quero vê-los nunca mais!”, disse em voz baixa, descendo a Cristóvão Colombo. Passando por toda aquela avenida cheia de atrações irrelevantes para ele se sentia, cada vez mais, menos feliz. Não se entendia, não queria. Achava que si mesmo estava numa fase. Identificou-se: ridículo. Manteve a marcha fria, assim como frio era seu olhar para os pavões da cidade. “Pavões…”, riu-se, mas não externamente, dessa ideia. Era verdade: um monte de pessoas que só faltavam brilhar fosforescentes… não. Até isso já tinham feito. As identificou: ridículas. Percebeu: meus sentimentos são iguais aos pavões dessa rua. Estancou que nem uma pedra que rolava montanha abaixo e encontra uma clareira. De repente teve a súbita vontade, incompreensível para ele (apenas mais um pavão), de comprar um livro. Entrou na loja à sua direita… Então sentiu seus pensamentos fora de si: não se compreendia, não conseguia se controlar. “Que estranho…”, pensou, enquanto pedia por um livro ao atendente. Era um livro muito obscuro, que não encontrava em lugar nenhum. Lembrou-se na hora que aquele era o mais incompreensível de todos… e, como ele gostava de mostrar sua capacidade através desses desafios, se intimou a comprá-lo, lê-lo e rir na cara dos outros que diziam não compreender… depois irei ensiná-los da forma correta. O livro veio e uma desapaixonação se abateu sobre ele. Não era um livro bonito, muito menos vistoso. Não tinha orelhas e a capa parecia envelhecida. O desenho era bem simples também, além de não ter uma sinopse sequer. O que substituía o resumo atrás do livro se limitava a uma frase: “Mágicos não existem”. E a única ilustração do livro negro era um homem fazendo paralelepípedos com os diminutos raios de Sol que adentravam pela janela. À sua direita ficavam os paralelepípedos montados e agrupados em pequenos montes, à sua esquerda se encontrava uma escuridão profunda. Viu que o livro tinha 200 e poucas páginas. Decepção. Tinha a ideia muito bem sedimentada que livros bons e difíceis tinham que ter, no mínimo, uma edição rebuscada, justamente para assustar aqueles que de nada entendem. Ficou ainda mais surpreso ao saber que custava meros R$ 16,00. Inacreditável e inaceitável! Teve dúvida sobre o verdadeiro valor do livro. Julgava-se muito acima daquele lixo editorial. No entanto, checou o título e o nome do autor. Estavam corretos. Decidiu, a contragosto, comprar o livro. Saiu entre triste e feliz (e um sentimento que não havia percebido: medo) da loja. Abriu o livro, no passeio mesmo, e começou a ler… Se sentia atraído fortemente e sem explicação. Olhou para frente rapidamente e continuou andando, lendo… Foi então que se deu conta que estava no meio da rua. E ao seu lado um caminhão, carregado de produtos químicos, estava sem freio vindo em sua direção. O caminhão derrapou para o lado, numa tentativa infrutífera de se desviar, e a parte superior da lataria abriu-se em uma colisão com um poste, deixando uma pequena quantidade de líquido escapar. O produto encontrou, fugazmente, os olhos vidrados e paralisados de medo do jovem, deixando-o parcialmente cego. Mas o caminhão não parou e atingiu-o fortemente fazendo-o voar até o carro à sua frente. Fratura craniana. Ele viu pessoas gritando, uma sirene rindo ao longe, algo quente escorrendo em algum lugar de seu corpo, a sensação evanescente do livro na sua mão e, olhando para frente, viu uma clareira em uma floresta densa… no meio estava uma pedra onde relaxava um homem. Apagou. Acordou no outro dia. Não estava dolorido, apenas muito exausto. As letras e horas estavam muito embaçadas, na verdade o mundo todo estava muito embaçado. Percebeu duas figuras dormindo ao seu lado… Um instinto: “Pai… Mãe?”. O pai se levantou como se tivesse levado um susto. A mãe se levantou como se tivesse acabado de sair de um sonho ruim. Os dois se voltaram para ele e viram um olhar perdido e franzido atravessando-os. O pai, após um acordo silencioso com a mãe, correu para chamar o médico. O sorriso magnânimo do pai podia iluminar uma cidade inteira. Sua mãe se limitou a chorar de felicidade e abraçar o filho longamente. O médico entrou, com um ar de superioridade e vitória (como se fosse necessário para sua alma se vangloriar), e checou tudo do jovem. Disse estar impressionado com a capacidade dele se curar tão rápido… (na verdade estava impressionado com sua própria capacidade de curar o jovem tão rápido) e falou que já estava tudo estabilizado e normal, até a cicatriz não era tão visível! Teria alta essa tarde ainda… terminou recomendando uma loja de lentes muito boa ali perto. Era só levar as informações sobre o grau necessário para ele usar, que eles resolviam na hora mesmo. O médico então teve aquela cena que tanto queria. O teatro em que ele se torna o rei e os pacientes e seus parentes seus súditos, agradecendo pela sua sapientíssima misericórdia ao impor suas mãos ao doente. O pai estava tonto, pálido, efusivo, ficava abrindo e fechando o botão de sua camisa como se não soubesse se sentia calor ou frio. O médico de ilusões saiu da sala, já meio vazio, procurando o próximo paciente que deveria “salvar”. O pai sentou no lado oposto ao da mãe com um sorriso claudicante no rosto. Nunca tivera uma relação muito amistosa com o filho e, sentia, que se mostrasse muito feliz… se não se mostrasse forte, o filho o rejeitaria ainda mais. Por isso pedia à mãe para se acalmar (apesar das lágrimas se apertarem na garganta dele). Ela se acalmando e intuindo o coração de seu marido decidiu seguir sua ideia. Pois ela se sentia culpada pela conflituosa relação pai-filho. Ela nunca foi a ponte que queria ser. De noite os dois se lamentavam pelas suas incompetências. Tinha a certeza que seu filho era infeliz, irritadiço até mimado. Mas não sabia como consertar aquilo. O filho falou que não estava conseguindo ver nada. A mãe em seu íntimo se perguntava, literal e sentimentalmente, porque não via nada. O pai com aquele pragmatismo mecânico disse que o levaria ao oculista, mesmo que em seu íntimo quisesse dar ao seu filho a resposta para aquela afirmativa quase existencial, que o filho não percebia dentro do pai. A tarde todos saíram do hospital. O filho estava indubitavelmente bem, seus pais duvidavam da verdade disso, tanto para ele quanto para ela. Os pais sugeriram que ele desistisse do vestibular amanhã, mas ele disse que não…. afinal de que outra forma vou conseguir ter um trabalho digno? Os pais se entreolharam, o pai apertando a mão no volante a mãe alisando seus cabelos encaracolados, sabendo a origem e a resposta para aquela pergunta mas com medo de responder. Deixaram o filho entrar sozinho na loja enquanto foram tomar um sorvete. Estavam com saudades um do outro, depois de tudo o que aconteceu. Ele foi atendido e entregou as informações sobre o grau dos óculos para a secretária. Ela entrou na porta dos fundos e foi conversar com alguém. Lá fora chuviscava. Ele ficou olhando para os números e letras embaçados à espera do atendente. Não sentia nenhuma dor. Aparentemente se recuperara assustadoramente rápido. Olhou para a chuva. Estava pensando em como cada gota borrava tudo. Começou até a sentir que a chuva fosse… “Esses óculos não são para você.”- disse uma voz atrás dele. Uma pessoa sensível teria sentido seu coração pular com tal susto. Mas ele se limitou a olhar para trás, com certa incerteza. Era um jovem, como ele, usava calça jeans surradas, uma camisa azul-claro desbotada. Os cabelos um pouco desarrumados e um olhar com uma calma assustadora. Tinha um sorriso triste, de vez em quando. “É um vendedor?” “Sim. Mas esses óculos aqui não servem para você…”- disse ele, olhando para a estante em frente ao jovem com indiferença-“Tenho um, no entanto, que é perfeito e barato.” “Ah, é?”- perguntou achando intrigante a forma pausada dele falar-“Bom, me mostre.” Ele seguiu o atendente até uma outra parte da loja, mais escondida, lá parou em frente à uma prateleira com vários óculos. Horríveis. Um mais horrendo e ridículo que o outro. “Cada óculos aqui é único e especial para cada pessoa.”- disse com um sorriso enigmático-“mas não os julgue pelas aparências.” Era o que ele estava justamente fazendo. Mas algo no tom do atendente o chamou a atenção e se pegou acreditando no que ele dizia. “Compreendo. Mas por que são tão ‘especiais’ assim? E qual é o meu?” Ele pegou uns óculos fundos de garrafa execrável e disse: “Acho que esse é o melhor para você. Ele permite prever o futuro nos sonhos.” A gargalhada do jovem foi visceral, intensa. “Co-como? Isso é impossível. Só falta você me dizer que também controlarei o destino…”- as últimas palavras saíram como um desejo. “Ora, seria ilógico pensar o contrário. Se você vê o futuro você o controla.”- o jovem ainda duvidava um pouco, mas o que o atendente falou em seguida foi a cartada final- “Imagine hoje você usa esses óculos e sonha com as respostas do vestibular amanhã? Você fecha a prova. Simples assim. Isso valerá para tudo o que você for fazer seja prova, amor, dinheiro. Façamos o seguinte, te darei hoje os óculos de graça para testar. Se der tudo certo amanhã você volta e paga, caso contrário você me devolve sem custos.” O jovem aceitou o contrato e colocou os óculos. Não sentiu nada. Teve quase certeza de estar sendo enganado. Despediu-se azedo do atendente, encontrou seus pais e foi embora. Ficou admirando os óculos e pensando, se fosse verdade os seus poderes, o que ele seria capaz de fazer. Também pensou que não iria emprestar para ninguém que fosse. Ele então percebeu o quanto estava cansado, talvez fosse por causa da prova de amanhã. Decidiu ir dormir um pouco mais cedo. E ficou pensando na prova e como passar. Queria acertar tudo. Acordou e percebeu que já estava na hora. Arrumou-se rapidamente e se encontrou com um pai há muito acordado (muito nervoso também, mas isso ele não via). Entraram no carro depois do café e chegaram na hora no local. Se despediram. O jovem entrou na sala e esperou o sinal para começar. Começou. Abriu a prova e uma decepção enorme tomou conta dele: ele tinha que pensar para responder. Os óculos eram uma farsa. Naquele espírito ele foi fazendo a prova. Desanimado, cansado, irritado e com muito medo. Quando estava no caderno de “ciências da natureza e suas tecnologias” ele recebeu a folha de respostas. E quase como que em uma repentina luz ele viu todas as respostas escritas ali no cartão, com inesgotável clareza. Também viu as respostas do outro dia e como devera redigir a redação. Se sentia exultante, no poder, era um prazer quase sexual o que ele estava sentindo agora… controle. Ele então ignorou a prova e se pôs a copiar o gabarito, apenas fingindo que olhava a prova. Pediu para ir no banheiro uma vez só para disfarçar mais. Estava feliz até estourar. Voltou, completou o gabarito e foi o quarto a sair da sala. Em casa conferiu o gabarito: acertara 88 das 90 questões (errara duas de propósito). Afinal, até para isso ele era capaz! Foi ao oculista agradecer, muito, e comprar os óculos.. Mas chegando lá o gerente explicou que o atendente pedira demissão… e também que os óculos já haviam sido pagos ontem. “Por quem?”. “Por você, mesmo. Você nos pagou ontem os R$ 98,50 dos óculos. Espero que goste deles!”- disse o gerente rindo-se da situação ridícula. O jovem ainda desnorteado não acreditava. Ganhei tudo isso sem pagar? Um presente? Isso é que é vida! No outro dia o jovem se lembrou de tudo e, novamente, acertou quase todas as questões (apenas errando as necessárias para não ficar óbvio). Decidiu não estudar para a 2º etapa de medicina. Seus pais continuavam pagando o cursinho, mas ele só fingia que ia e logo voltava para a casa com uma desculpa no bolso. Seus pais chegaram a duvidar, mas depois de descobrirem que ele passara para a 2º etapa de medicina e, logo depois, em 1º lugar geral, não se aguentavam de prazer. Compraram um apartamento grande para o filho mais perto do centro e um carro. O filho ria da estupidez da vida. Ele logo percebeu que poderia fazer tudo o que quisesse que conseguiria: convencer as pessoas, tirar total em todas as provas da faculdade sem estudar. Era um paraíso. Nada ficava ruim para ele. Após ele ter arrumado sua vida, inclusive encontrado uma namorada perfeita para ele (tudo isso usando os óculos), começou a ficar meio triste. Já estava no segundo ano e se sentia meio perdido, sem objetivo… Não porque ele não podia ter algo, muito pelo contrário, ele não encontrava algo pelo que lutar. A ideia foi dada por sua namorada, um dia enquanto assistiam TV. “Amor, não seria maravilhoso se conseguíssemos ajudar todas essas pessoas carentes? Sabe, porque não entramos em uma ONG ou algo parecido?” Ele olhou para seus óculos… “Sim. Amanhã vamos entrar numa ONG. Você escolhe qual e eu entro em contato, pode ser?” A namorada ficou exultante e mostrou uma em particular que servia para dar alimentos à pessoas carentes. Então ele, antes de dormir, pensou: “Queria ajudar as pessoas necessitadas… mas como se não tenho dinheiro?”. Ele sonhou que entrava na ONG e galgava os degraus hierárquicos até se tornar chefe de propaganda. Lá ele iria, usando os óculos, convencer grandes empresários a fazerem doações para a ONG. Por dois anos eles, além da faculdade que ele não tinha problemas, trabalhavam pesado na ONG. E, seguindo todas as instruções dos óculos, conseguiram tornar a ONG extremamente bem-sucedida. Ele já era até convidado para dar palestras sobre saúde e ONGs… e nessas palestras ele sempre se saía bem, sempre usando os óculos. Na verdade, todas as dificuldades na vida dele, inclusive as conjugais, eram resolvidas pelos sonhos. Eles se casaram logo depois de terminarem a residência. Já eram considerados o “casal branco”, pela mídia. Chegaram a dar duas conferências internacionais juntos. Eles não só ajudavam com alimentos, mas agora já davam educação, arte e cultura para os menos afortunados. Era quase tão famoso quanto um ator de novela. E ele se sentia bem quando as pessoas pediam sua opinião ou ajuda com qualquer coisa. Ele era sempre solícito e cortês com todos os que o procuravam. Alguns dias, nesse meio-tempo, começaram a aparecer um único sonho que se repetia todas as noites. Ele se encontrava sentado em uma escrivaninha em uma sala escura. Na sala não existia mais nada além da escrivaninha, ele e papéis em branco. Papéis que ele ficava escrevendo com um fervor e desespero assustadores. Era quase como se sua vida dependesse disso. O problema é que mesmo escrevendo nos papéis eles continuavam em branco. E os “escritos” eram amontoados em grandes pilhas de papel, parecendo torres de uma igreja gótica. Ele sempre acordava sobressaltado depois desses sonhos. No começo eles apareciam de mês em mês. Depois eles foram ficando mais intensos e diários. Depois de um tempo de enorme alegria ajudando os outros ele ainda se sentia vazio. Sentia que precisava ainda de algo. Talvez porque sua namorada plantou a ideia de um filho. Talvez porque ele já se desiludia com aquele sonho infantil de ajudar os outros. Ele percebeu que, em sua vida, não havia descanso, circulava sem parar entro o hospital e a ONG. Onde ele entrava? Onde estava os meus gostos, os meus anseios? Ele olhou para a sua casa e percebeu que ela não era tão confortável assim… Pensou: não posso deixar minha mulher e filhos morarem em um protótipo ridículo de casa. Ele então percebeu que precisava de dinheiro. Deu todo o governo da caridade à mulher e procurou sonhar com uma solução. Teve um sonho em que ele era dono de uma empresa que administrava hospitais. Ganhava fortunas com isso e ainda ajudava pessoas, mesmo que indiretamente. Também viu, através dos óculos, que a forma de conseguir capital de giro era aplicando na bolsa de valores. Usando os óculos todos os seus “palpites” nunca errariam. Acordado, juntou todo o dinheiro possível, incluindo os de algumas doações para a sua ONG, pois ele pensou que só um pouquinho não faria mal… ele nunca contou essas pequenas “realocações justas” de dinheiro para a mulher. Nesse ínterim, ele foi aplicando sempre corretamente na bolsa. Aplicava tanto e passava tanto tempo fora, que praticamente não via sua mulher. Ela, no entanto, cuidava da ONG, apesar de não tão bem quanto o marido, mas ao menos a mantinha funcionando decentemente. Ela, durante esses cinco anos, ficou extremamente solitária. Quis pedir para ele parar e simplesmente aproveitar a vida ao seu lado, mas ela pensou que esse desejo era egoísta demais e se lembrou que o que o marido estava fazendo era pelo bem dos outros. Afinal, era isso o que ele lhe dizia. Ela se sentia tão solitária que a única hora que via o marido era 1 hora da manhã, quando ele chegava cansado mas ela não falava nada, até fingia estar dormindo e esperava ele cair em um sono profundo, o que não demorava nada. Ela então segurava a mão do marido como se quisesse chamar sua atenção para a existência dela, como se aquilo fosse a única lembrança segura de estar amando. Queria, com aquele gesto, evitar que algo importantíssimo se perdesse ou se quebrasse. Segurava com saudade dos tempos que ele se apaixonara por ela e pensava que aqueles tempos nunca mais voltarão. Ela ainda o amava, mas não sabia se o contrário ainda era verdade. Foi durante esses cinco anos que começaram a aparecer certos sinais na mulher, que ela escondia terminantemente do marido, com medo de ele se esquecer de suas obrigações. Como a mulher conseguia tudo isso? Leitor, se você amar uma mulher, pergunte a ela… caso seja uma mulher, por favor, gostaria que me explicasse… O marido, então, se tornou um empresário bem-sucedido. Compraram uma belíssima mansão que poderia fazer inveja em um xeique. Ele começou a passar mais tempo em casa, só que ainda assim era cego para o sofrimento de sua esposa. Ela se tornou um pouco mais fria com relação a ele… mas nem isso adiantou para chamar-lhe a atenção. O sonho de ficar escrevendo páginas em branco agora era diário e no quarto sonhado já existia várias pilhas de papéis que tocavam o teto. Dois anos depois eles tiveram o primeiro o filho, três anos depois do primogênito, a filha. A mulher se alegrou um pouco por agora ter um filho, alguém para amar com certeza. Os filhos, no entanto, cresceram mimados, visto que o pai era completamente ausente e a mãe muito presente. O primogênito se tornou um paladino da causa comunista e sempre criticava, até mesmo o próprio pai, em público. Tornou-se um grande líder e até conseguiu algumas vitórias efêmeras. Pois, começou a cansar de tudo, quando estava mais velho, perto dos 25 anos. Afinal, percebeu que era assim, não porque odiava o pai, e sim porque queria substituí-lo. Descoberto seu infantilismo, largou o movimento e procurou, simplesmente, ser uma pessoa melhor: melhor marido, melhor pai, melhor amigo, melhor cidadão sem a necessidade de um movimento que, agora ele via, era infantil e arcaico. A filha mais nova se tornou reclusa, tímida. Se trancava no quarto por horas à fio só para estudar. Amava tudo relacionado à cultura, mais especificamente, no tocante às inter-relações humanas. Ela sempre se perguntava o porque de tanta fixação nessa ideia. Entrou na faculdade de antropologia e se tornou um das melhores alunas. Mas ainda não se sentia realizada, mesmo com o pós-doutorado em relações humanas. Foi quando ela percebeu que ela só estava procurando entender o porque da distância do pai. Percebido a sua desrazão, começou a pesquisar sobre religiões. Descobriu nesse ramo de pesquisa, literalmente, a sua cura. A mulher se mantinha esperançosa quanto ao marido. Ainda carregava a esperança dele voltar a ser quem era… mas já pensava em separação. E na verdade, foi isso que aconteceu. Quando ambos tinha pouco mais de 50 anos ela morreu por causa de um linfoma. Foi a última vez que o pai viu os seus filhos, no enterro da esposa. Um dia ele acordou na sua fria mansão e percebeu que havia perdido tudo. O homem então decidiu… parar. E é impossível ganhar aquilo que se perdeu. Como não precisava de mais nada, e não sabia como melhorar (não queria), decidiu não mais usar os óculos. Naquela noite ele sonhou em se tornar um político, criar leis para ajudar as pessoas e como fazer tudo isso. O sonho da escrivaninha ficara mais intenso, e as folhas para escrever rapidamente se esgotavam. Acordou muito assustado. Afinal, os sonhos só viriam se eu usasse os óculos, certo? Ele simplesmente se limitara a não fazer nada. Irei ficar o dia inteiro em casa quieto e calado. Mas sua paz não durou muito. Ao meio-dia um outro empresário, amigo dele, o ligou, dando parabéns pelo último negócio que realizou com a China. Ele acabara de lucrar milhões. O outro, no entanto, em uma mudança brusca de assunto o convidou a tentar um cargo para governador estadual. Assim, ele poderia propor leis que facilitariam muito os negócios. A primeira coisa que lhe veio a cabeça foi: “Não! Para com isso!”, mas o que ele falou foi: “Olharia isso hoje mesmo. Ótima ideia.”. Ao falar isso desligou o telefone e percebeu que não fora exatamente ele que falara aquelas últimas frases. O medo já tomava conta de sua razão. Foi até o quarto. Viu lá os óculos com um brilho prismático sinistro dentro dequeles paralelepípedos. Pegou a armação com todo o ódio possível, atirou-os ao chão e pisou até não saber nada. Pegou os restos e jogou no lixo. Julgou que isso iria terminar o encanto. Passou-se algumas horas e ele se viu tomado de uma necessidade maior que a fome, de conseguir o cargo político. Percebeu que morreria ou enlouqueceria no mínimo, se não o fizesse. Tentou resistir o máximo possível, mas todo o seu ser era angústia e inquietação. Era uma dor extremamente profunda na alma. Como um buraco-negro sugando todo o seu ser. Mas ainda assim tentou se segurar. Não queria mais aquele contrato. Foi até o banheiro. Quando se olhou no espelho percebeu que sua imagem possuía um olhar e sorrisos sinistros estampados no rosto. A imagem disse: “Então? Porque parar agora? Você tem em suas mãos o poder para dominar todos os homens. Fazer quem você quiser obedecer! Mate essa fome! Eu sou o verdadeiro você! Vai parar agora? Você só tem mais algumas poucas décadas de vida… Porque não aproveitá-las ao máximo, hein?”. A imagem deu uma risada assustadora e enquanto o som ainda ecoava na sua mente, outra imagem se formou. Lá estava o sonho da escrivaninha. Só que ele parara de escrever. Ao seu lado só tinha uma única folha em branco. A sua volta estavam pilhas e mais pilhas de folhas “escritas”, infinitas. A imagem então falou: “Eu sou você. Eu sou a superficialidade da sua vida. Ela foi tão inútil e sem significado…” chorou lentamente, a imagem desfigurada, “Tentei escrever mas nunca saiu nada e agora só falta uma única folha. Já estou sem esperanças.” Pegou a folha, colocou-a na sua frente e perguntou, com um sorriso tenebroso: “Então suponho que você queria morrer com toda a pompa possível, né?”. As lágrimas desenharam lagos na folha. O homem correu até ele mesmo e se olhou: estava cadavérico, os olhos fundos e onde deviam estar as órbitas existia apenas escuridão. “Eu sou você.”-disse a imagem. Não! Não pode ser! Por favor alguém me ajuda! Eu não quero mais, por favor não! Ele começou a sentir o frio lentamente escalar seu corpo até chegar no seu pescoço e… Abriu os olhos. Estava em uma clareira, no meio de uma floresta verdíssima, ensolarada. Olhou para uma poça d’água que acabara de se formar ao seu lado e percebera que não estava mais velho. Na verdade, voltara à ser jovem, aquele mesmo que ainda ia fazer vestibular. Onde estou? Foi tudo uma ilusão? O que está acontecendo aqui… Ouviu um barulho atrás dele. Sentado em uma pedra no centro da clareira estava o atendente que lhe vendera os óculos, cantarolando. A diferença é que agora, ao seu lado, estava uma enorme mochila, como aquelas usadas por alpinistas, verde-desbotada. “Onde estou?”- perguntou o jovem ao vendedor. “Em você mesmo. Onde mais?”- disse o vendedor, a voz calma era como um rio lentamente correndo a montanha. “Como?”- Estava muito confuso. “Ah! É possível que não se lembre.”- o vendedor se virou. Quando seus olhos se encontraram, todo o peso da verdade pareceu se abater sobre seu crânio.- “Sabe, todos os humanos possuem um lugar secreto. Uma espécie de santuário que ninguém mais conhece, tampouco pode entrar. Essa clareira foi você, com 10 anos, que inventou, se lembra agora? Aqui é o local onde você-mesmo vive.” Uma dúvida perpassou o semblante do jovem. Quis saber como, então, estava ele ali se só ele conhecia e podia entrar nesse local? “Ah, sim. Já esperava essa pergunta.”- Por alguma razão o jovem se sentiu atraído por toda aquela tranquilidade… era como se pudesse simplesmente esquecer seus fardos, por um instante…- “Mas você ainda é incapaz de compreender certas coisas. Mas digamos que foi você que me chamou, me pediu ajuda e me permitiu entrar aqui. O fato de você não se lembrar disso… é que você me chamou com seu… espírito, digamos assim. É o máximo da sua compreensão, ainda que não seja completamente certa.” “Sei…”- Olhou desconfiado para ele, afinal fora ele que lhe vendera os óculos!- “Então… quem é você?” “Me chamo Ivan Stigleb.”- disse com um sorriso melancólico no rosto- “Sou um vendedor de alívio.” O livro! O livro que ele comprara! Todos os contos eram sobre ele! “Pequenas sombras”, de Amélia Strongarde. Estava fascinado pelo mistério e a inovadora cura trazida pelo vendedor. Se lembrou que queria ler esse livro porque ouviu falar que a autora entrou em esquizofrenia grave depois de escrevê-lo. Queria provar para todos que era capaz de compreender todo o conteúdo sem enlouquecer. Ele iria, com esse livro, mostrar sua força, toda a sua capacidade. E depois iria ensinar como lê-lo. Ganharia muita fama e reconhecimento com isso tudo. “Como você está aqui então? Digo, aqui e não no livro?” “Nos, os vendedores de alívio, estamos sempre em todos os lugares.” Aquilo era uma frase do livro. “Mas você cura as pessoas, certo? Eu não preciso disso. Preciso é de outros óculos para consertar tudo…” “E se eu te dissesse que nunca existiu nenhum óculos? Que nunca ocorreu o acidente que te deixou parcialmente cego? Que tudo não passa de uma transferência de culpa simbólica?” “Existiu sim! Eu vi tudo eu…”- De repente se lembrou que havia agora mesmo enxergado sua imagem com clareza na poça.-“então eu nunca precisei de óculos?” O vendedor sorriu melancólico e pensou no enorme trabalho pela frente… e na cura, a pior parte. “Você não parece ter gostado de toda aquela vida. Eu vi tudo.”- Um cheiro forte de canela povoava o ar. “Não…”- Ele se assustou com aquela revelação própria. Por quê?-“Não e não sei porque.” “Entendo…”- O vendedor suspirou profundamente e disse.- “Acho que está na hora de te explicar a verdade.” “Como?!? Que…”- Um gesto de Ivan o interrompeu. “A verdade é que você sofreu um acidente e ainda se encontra em coma. Faz pouco mais de 1 mês. Durante esse período você procurou “continuar” sua vida. Mas se você parar para pensar perceberá inúmeros hiatos nas suas lembranças. Tudo não passou de um sonho em que você pediu ajuda para se curar. Sabe do quê?” “Não.” “Lembra-se da sua vida e dos seus pensamentos antes do acidente? Fingia ser amigo dos seus colegas, apesar de no fundo odiá-los. Julgava todas as pessoas como pavões e as desprezava. Sempre se julgando acima e melhor que todos. Você queria ler o livro, não pelo conhecimento, mas sim pelo poder de saber algo. E assim controlar as pessoas. Estou errado?” “Não, afinal isso é a pura verdade. Só eu que tenho capacidade. E o fraco naturalmente procura o forte.” “Ainda assim, você viveu uma vida solitária, fria e nada feliz. Nunca teve amigos e ignorava seus pais. Ridicularizava todas as religiões. E apesar de toda essa força você ainda teve que recorrer à ridículos óculos para conseguir mais poder? Pessoas comuns não precisam de artefatos, apenas ególatras, com enorme medo de si-mesmos, precisam dessas coisas. Você é o mais fraco dos homens.” A calma nunca saía da voz do vendedor, chegando, de certa forma, a torná-la amedrontadora… O jovem riu de tudo aquilo, achando tudo ridículo. “Eu consegui tudo aquilo porque eu podia. Se ninguém queria eu queria. E todas têm que me obedecer, visto que elas desistiram ou são incompetentes para o trabalho. Só eu posso organizá-las. Graças ao poder dos óculos eu fui capaz disso.” “Porque você parou de ajudar as pessoas?” “Ora, chega uma hora que a caridade não faz mais sentido. Eu também procurei parar de me preocupar e ter uma vida digna.” “Porque você resolveu todos os seus problemas amorosos com os óculos?” “Para que eu pudesse ter a mulher que eu quisesse sem nenhum trabalho. Isso não é um sonho? E melhor, ainda resolvia tudo sem gastar uma gota de suor.” “Porque você começou a roubar da caridade?” “Roubar?!? Nunca roubei. Eram doações e eu as empregava onde quisesse!” “Porque seus filhos te odiavam e se afastaram completamente de você?” “Odiar? Há! Impossível! Dava-lhes tudo! Tudo o que eles quisessem era só pedir.” “Você controlava a Bolsa de Valores à seu favor. Isso não é imoral?” “Claro que não! Eu só acertava corretamente, nada demais.” “Porque então depois da morte de sua esposa você decidiu parar? Não era você capaz de tudo, até de achar outra esposa qualquer?” O jovem ficou calado. Uma névoa espessa começou a descer sobre a clareira. Ele teve que chegar mais perto do vendedor para vê-lo melhor. Seu rosto era imperturbável e a sua tranquilidade transbordava para todos os seus gestos. O jovem compreendeu pela primeira vez o significado de: “Harmonia”. “Você me pediu ajuda e vou te explicar. Os óculos eram o elemento da redenção. Ele te fez trilhar todos os seus desejos, quisesse ou não cumpri-los. Só que seus desejos eram voltados completamente para você. Até mesmo a suposta “caridade” não foi mais do que uma mera moeda de troca para a fama. Todos os seus desejos se resumiam em alcançar notoriedade, poder, fama, reconhecimento. Pois, até hoje você não teve nada disso. Esse desejo infantil ridículo de achar que tudo no mundo deve ter uma raison d’etre pelo simples fato de você existir, tornou-o egoísta. O elemento então tomando a forma simbólica de um óculos procurou te ajudar mostrando que todos aqueles desejos eram antes do seu ego, ou seja, eram externos à você-mesmo. Tudo o que você quis eram coisas completamente materiais que, para a vida humana, não tem nenhum valor, mas para a vida terrena são ilusões que nos permitem viver um pouco melhor apesar de nos desviar do verdadeiro sentido do nosso existir…” “Mas e toda a felicidade que experimentei? Foi tudo mentira?” “Sim. Afinal, você se tornou incapaz de distinguir entre felicidade e prazer. Tudo o que você fez foi por mero prazer infantil. Na verdade, o seu maior desejo de todos foi escapar de si-mesmo. De suas obrigações existenciais.” Ele então percebeu que envolta deles flutuava 4 retângulos de papel, onde letras irreconhecíveis dançavam. Percebeu que uma primeira frase, escrita em puro ouro, havia se formado. Enquanto isso as outras letras abaixo continuavam a rodopiar. O jovem se manteve cabisbaixo. Uma raiva feroz se aglutinava dentro dele. “Quem é você para falar tudo isso? Você não sabe nada de mim!”- A névoa se adensara. Os gritos do jovem ecoaram pela clareira vazia. “Essa raiva não é nada mais que o grito desesperado por sobrevivência do ego. Vocês humanos são interessantes: defendem até o fim que não são aquilo de que estão sendo acusados, mesmo com os sentimentos dizendo coisas completamente diferentes. Quanta contradição!” “Me responda!” “Você já parou para pensar que ninguém com quem você entrou em contato, usando os sonhos dos óculos, teve liberdade?” “Mas é claro que tinham! Isso não faz sentido…”- ele hesitou em falar por alguns poucos momentos. “Sua hesitação diz que sua consciência pensa de outra forma. Tudo o que você tocava perdia a liberdade. Você é como o rei Midas: o ouro foi substituído por controle e você ainda não percebeu a futilidade desse seu desejo. Me fale qual é a graça de viver em um mundo onde você sabe controlar tudo? Para mim, isso parece uma prática medrosa de comodismo e horror. Você tem medo de outros seres humanos e nojo de ser você mesmo… nojo tão grande que preferiu seguir os sonhos dos óculos. Você viveu a vida que o elemento queria que você vivesse, não percebeu isso? É isso que o elemento faz: usa você para realizar os sonhos dele. E espera que você seja sábio o suficiente para descobrir essa farsa e desejar viver a sua própria vida, não uma vida imposta externamente, como o é a vida de todos os egoístas. No entanto, você estava tão iludido com aquele teatrozinho que você pouco se importava se eram sonhos seus ou de outros. Tudo que você queria era o prazer, o poder, a fama. Como é saber que você viveu em um mundo de máquinas?” “Isso é tudo mentira…”-disse o jovem perdido em seus pensamentos. “No fim, o elemento perdeu a paciência e decidiu te matar. Assim a redenção por tudo o que você fez estaria completa. Mas você, no último instante, percebeu e eu consegui te salvar. Saiba que se ele decidisse te matar (sem você perceber) eu não poderia fazer nada. Você tinha se afundado tanto na lama do egoísmo que eu não conseguiria te alcançar mais. Essa é a verdade: um jovem com uma psicologia infantil quis ter tudo para ele. Mesmo sendo enganado. Desistiu de todas as coisas importantes na vida. Ignorava o desesperado amor de sua mulher, a urgência do carinho para seus filhos. Não aprendeu nada com os seus problemas, pois nunca precisou resolvê-los por si só. Nunca parou para pensar o que era importante, apenas queria viver mais e mais de prazer. Todas as ONGs que seguiram seus conselhos se perderam. Pois, elas não tinham a sua “onipotência”. Você jogou mais homens na falência do que ajudou: sua necessidade de conseguir dinheiro à qualquer custo quebrou inúmeros investidores e empresas. Mas e quando eles reivindicavam? Você os esmagava com seu poder e lábia, jogando-os ainda mais na miséria. E lá na miséria, a quem recorriam para ajuda? À sua ONG, afinal era a única que verdadeiramente funcionava. Você é pior que Fausto. Você queria fama, não para te amarem e sim para te venerarem. Se julgava o educador dos homens, mas em todas as suas palestras só ensinava obediência cega, brutalidade e ignorância. Tudo para te venerarem. Agora se lembra de todos os hiatos?” O jovem estava chorando. De repente tudo lhe veio a memória. Todos aqueles anos que ele achou que não lembrava, agora vieram como um filme com uma clareza de detalhes impressionantes. Realmente, ele fizera tudo o que o vendedor dissera. “Tudo o que falei seu ego engenhosamente soterrou. Tudo isso que você está vendo agora é a verdade.”- Outra frase acabara de se formar logo abaixo da dourada, era de uma coloração azul-escuro. E essa frase, como a outra, eram indecifráveis para a mente humana. Ele estava atônito. Como fizera tudo aquilo? Sua face parecia a de um demônio. Ele se viu roubando dinheiro descaradamente por “vias legais”. “Ajudando” os menos favorecidos que ele acabara de criar. Viu suas palestras onde parecia mais um fanático do que um educador. Viu-se controlando as pessoas, até sua mulher e filhos. Sentiu nojo de seu ego, ele tinha jogado mais pessoas na miséria só para que sua ONG ganhasse fama e, consequentemente, ele também… e conseguira. Todos aqueles anos que julgara ajudar a humanidade foram todos ilusões: ele fora na verdade o maior carrasco. “Não. Não pode ser, eu…”- Não conseguia mais arranjar palavras. A mesma sensação que teve antes, de um buraco sugando sua alma voltara. O vendedor de alívio suspirou entre alegre e triste. Alegre porque iria curar mais uma pessoa, triste porque ele queria fazer isso de uma forma menos dolorosa. Sentia piedade da humanidade, mas ainda… Não há coisa mais triste do que ver uma dor existencial se desenvolver. E esse era o dia-a-dia de sua vida… “Você se arrependeu… Pois agora te dou duas opções…” – mexeu em sua volta e pegou duas folhas, uma verde e uma amarelada. A névoa já começara a se dissipar lentamente.- “Não importa qual escolher, as duas irão fazer você acordar do coma imediatamente. E você também não se lembrará de nada que ocorreu aqui, sequer da sua própria escolha. Mas antes de te dar as opções preciso que você me dê algo que importa muito para você, afinal ainda sou um vendedor, certo?” O jovem pensou longamente e se lembrou da pequena pedra colorida que carregava quase sempre. Era uma daquelas pedras dos rios que, quando molhadas, podiam escrever com elas. Ele carregava ela porque isso o fazia se lembrar da fazendo de seus avós, que fora vendida logo depois da morte de ambos. Ele sentia muita saudade do rio e de todas as brincadeiras que fazia lá. Com muita relutância que a entregou para o vendedor de alívio, que se limitou a olhá-la intrigado e a guardou na sua mochila. “As suas duas opções são: primeira, não mudar nada na sua vida. Você terá ainda todo o prazer possível, toda a fama, enfim tudo o que uma pessoa comum pode sonhar em desejar. Você será idolatrado, inteligente. Você terá dificuldades, mas não se preocupará muito com elas, afinal sua vida será repleta de coisas para fazer: você simplesmente ignorará os problemas. Viverá uma vida farta de prazer e praticamente todos os seus desejos serão realizados com o menor esforço possível. A outra possibilidade, você renegará à tudo isso. Você terá prazer, mas saberá que ele é efêmero. Lutará e perderá a maioria das batalhas e sofrerá muito com isso. Mas toda luta ganha, por menor que seja, te trará a verdadeira felicidade infinita e eterna. Haverá momentos que pensará seriamente em desistir, mas não irá. Seus momentos de felicidade serão poucos, mas serão os momentos mais significativos de sua existência. Você seria capaz de fazer tudo de novo só para experimentá-los novamente. Eles também serão duradouros, no entanto, muito provavelmente, só os perceberá depois de longos anos terem se passado. A folha amarelada é a primeira opção, a folha verde a segunda opção. Qual é a sua escolha, humano?” A névoa agora se dissipara e um Sol fazia brilhar o orvalho. Um vento calmo soprava a vida. Embaixo das outras frases coloridas nos retângulos flutuantes se formou a última frase com uma coloração vermelho-sangue. E lá estava a tríade completa: forma, verdade e arrependimento. O jovem agradeceu ao vendedor de alívio e escolheu a… O mundo girou ao seu redor. Foi tragado pela infinita escuridão que surgira. Sua última lembrança foi o vendedor de alívio arrumando suas coisas e dando-lhe as costas. Impassível como uma montanha, caminhou até desaparecer entre as árvores. Ele acordou. Estava sozinho em um quarto de hospital. Sentiu-se zonzo e fraco, muito fraco. Sua cabeça latejava se tentasse levantá-la, decidiu-se pela cama. A janela deixava entrar uma claridade de pôr do Sol bem fraca. O quarto era praticamente ele todo penumbra. Tentou se lembrar porque estava ali. Não conseguia se lembrar ao certo. Estava num silêncio sepulcral, até uma enfermeira entrar no quarto e se assustar com seus olhos abertos. Ela correu para chamar o médico. Ele o examinou e tentou fazer algumas perguntas. Sim, ele sabia onde estava. Sim, ele sabia seu nome. Não, ele não se lembrava do acidente. O médico então informou-lhe que havia se passado pouco mais de um mês que estava de coma. Tudo ele respondia com simples grunhidos. Estava cansado. Gostou quando os pais chegaram. Eles haviam trazido o livro que tinha comprado. Ele então se lembrou do acidente, mas depois disso pareceu-lhe que dormira um sono profundo sem sonhos. Quis ver o livro. Por alguma razão ele sentia que tinha que ler novamente a frase que se encontrava na parte de trás do livro: “Mágicos não existem.” — Vaga-lumes
Acompanhei sua alma com meu corpo Aquele corpo estúpido que sabe das presentes coisas (E a alma sofria previamente um embalo de [solidão) Minha mão segurava a sua Como se compreende-se um fato Mas a construção batia lá fora E meu coração batia lá dentro Estagnei, assustada, à frente do túnel escuro Você voltaria, eu não E como a chuva dá adeus ao céu Assim despediram-se nosas mãos E o laço eterno Se desfez Vi a escuridão envolver aquilo que antes conhecia E julgando ter você olhado para trás… (Você olhou para trás?) Vi a luz se tornar escuridão Apreensiva quis ir e chamei seu nome que ecoou no silêncio Sabia que tinha que ir mas tinha medo [de me tornar a morte que sempre fui Se eu amar a escuridão, taçvez te ame Você é ali e aqui Mas não quero (posso?) amar aquilo que perdi Apenas o que ganhei: Escuridão Passos Temor Desconhecido Perversidade de você Medo de me tornar eu Virei de costas e como uma estátua quebradiça Esperei sua volta Sua resolução Te perdi mas quero sua morte E a construção bate mais forte A chuva cai mais silenciosa Até que sobre apenas a sua solidão E eu nunca saberei se você voltará (E quem estará mais velha Sou eu) - Amélia Strongarde — 5/10/2012
Faz um bom tempo de chuva, ele pensou. Estava sentado em sua escrivaninha em frente a janela… contemplando uma selva africana. E como todos os dias chovia como se o mundo fosse diluir-se em lágrimas celestiais. Ele lia algo sobre anatomia. Era cirurgião. Olhava com certo receio a chuva e toda a incerteza de limites que ela trazia. Afinal, ele tinha forames, trígonos, origens, inserções, plexos, vascularização. Era ele completamente explicável e ria-se de toda aquela diluição: ele que era um homem anatômico. A luz talvez acabe daqui a pouco, languidamente e irritado pensou. Afinal, sem luz como poderia estudar-se? A escuridão só serve para dormir. Mas, mesmo pensando conscientemente isso ele se sentia… ausente. Algo faltava, mas ele não o admitia; afinal ele sabia toda a sua inervação… Ele gostava também de ficar parado a escuridão… Uma vez a quase aceitar a plenitude de tudo aquilo, mas isso seria aceitar algo que não queria ou não existia… logo, era irracional. O mundo já havia se tornado aquoso. A casa rangia completa pelo barulho da chuva. Ele praguejava porque a chuva não o deixava concentrar… (Na verdade ele odiava a chuva por outro motivo…). Olhava as suas mãos com a clareza de um geômetra: fórmulas e impulsos elétricos era tudo o que ele era. E se sentia bem com isso, afinal não perdia tempo pensando naquelas filosofias inúteis e anti-práticas. Aquilo que não é aplicável é igualmente inaceitável. No forama isquiático passam…, e ele citava tudo e os limites. Mas quando ia começar a delimitar um raio rasgou o céu como uma faca em direção à uma árvore ali perto e um trovão rimbombava nas janelas fazendo-as tremer. O homem, que possui um medo irracional de raios, se assustou e olhou para suas mãos como se procurasse algo com o que se proteger… mas lá estava a escuridão: a luz tinha acabado. E o homem naquela súbita realização assustada percebeu que, assim como a chuva dilui a terra, a sombra dilui o homem. Ele se viu arrasado, destruido. Na mais completa escuridão não sabia seus limites. A anatomia não existe em um teatro de sombras. Na escuridão o homem é o professor do homem. Desesperado quis se lembrar de toda a luz antiga, aquela luz de sua infância… aquela luz egoísta que indicava que o mundo era seu servo. Egoísta. A palavra ricocheteava em seu cérebro escurecido por dentro, não por fora. Porque escolhi a medicina? Porque eu queria controlar os outros. Porquê? Porque eu tenho a luz e os outros são meus servos. Porquê? Porque eu decido quem morre e quem vive, afinal sou um cirurgião. E entre a luz e as trevas existe uma ponte quebrada: e o homem estava em cima dela. Ele nunca havia admitido a possibilidade de possuir sombras em seu coração. Era ele a pura luz… a pura auto-enganação. E sem limites percebeu que era controlado. Estava sendo controlado por si próprio. Subjugara o mundo e a si mesmo e só sobrara… uma máquina. Uma máquina de destruição. As sombras ensinam a temer. Ele era incompleto, na verdade, nem tampouco era. Uma vida desperdiçada com limites, com alienação… justo ele que se achava o mais letrado dos homens! E o som da chuva rasgava as máscaras de seu peito. Estava com medo… com medo de admitir sua escuridão, seu nojo dos homens. Sua raiva e seu ódio perante aqueles que não se “dedicavam” como ele. O seu desprezo. Tudo aquilo agora se voltava contra ele. De que servia tudo aquilo? Tudo num sonho estreito, num sonho cômodo. São aqueles que preferem controlar o mundo em seu favor, do que temer descobrirem seus abismos. Não sabem que quanto mais ignorar o abismo maior ele se torna. Ele nunca se conheceu. Viveu com outra pessoa, a vida de outra pessoa através de suas mãos. Tinha tanto medo de sua imprevisibilidade que se matou: era um suicida. E todos os suicidas preferem a luz… no entanto, quanto maior é a luz maior é a sombra projetada. Se não aceita a sombra (ela sempre te aceita)… é mais cômodo ser apenas mais uma máquina padronizada. A luz então voltou. A chuva mais amena agora amaciava a dureza do mundo. Acariciava os minerais. E o homem acariciava sua mão: que havia tirado sua vida. -Ivan Carlos — 1/11/2012
Se acordei não me lembro de estar. Naquele esquecimento momentâneo, as revoluções das sombras me torturavam com sua sensualidade. Suado pelo calor inacreditável, não queria me mexer: algo se quebraria. Era aquele tecido que nos envolve antes ou logo depois do sono. Nos arrebata do nosso corpo mas ainda quase que sub-repticiamente nos moldando. Que escuridão. Tinha desligado todas as luzes, até a dos meus pensamentos, aceitando as inescrutáveis ideias… Ah! Sim, então foi isso. Tive um sonho. Porque me esqueci? Fechei os olhos na esperança de ver… se bem que fechar ou não os olhos não faz diferença na escuridão. Quase que parando de respirar, esperei: Ivan estava certo, existe uma diferença entre um diário e um relato. A maioria das pessoas fazem relatos em seus diários… fazer um diário mesmo exige força e coragem… e esquecer o medo. Lembrei que esqueci de colocar gasolina, mas assim eu vi estrelas cadentes. Parei o carro por falta de medo e corri até o rio mais próximo: precisava tomar banho. Peguei na minha mochila um livro de capa amarela e o coloquei de lado, afinal palavras ali não matavam. Era uma conversa. Sentei-me na ponta da mesa para ver as estrelas caírem na lagoa. Mas qual céu eu admirava? Era o céu ou o céu-lagoa? Ambos tinham estrelas cadentes que eu não fazia desejos, pois estava do lado do rio lá de casa. ”Tenho raiva desse Sol”. Ela apontou para a lua-sol correndo pelas montanhas. “Quê?”. Mas já via a chuva da janela daquele café, trazendo a calma para a raiva. Um barulho de ventilador rodeava as cabeças inexistentes das pessoas. Eram como casacos segurando guarda-chuvas. Mas ninguém ria no café além das duas pessoas na mesma mesa que eu. Não havia luz, além de uma direta da janela, vinda literalmente do nada absoluto. “Quê?”, perguntei pois elas falaram algo e uma moto entrara no café. Decidimos então sair e chegamos no rio anterior onde agora um ventilador nas pedras fazia todo o vento do lugar. Era uma mulher, talvez um homem, não sei. Conversava sobre algo muito importante que escapou à minha ciência. Era como se as palavras viessem de dentro de mim. Elas estavam sendo-me reveladas. Mas não me lembro. Não era para me lembrar. Sei que encontrei a gasolina. Mas não quis ir, pois sabia que o carro não estava mais lá. Acordei novamente na escuridão profunda. O sonho me arrebatava os sentidos e os jogavam nos cantos do quarto. De repente de tudo esqueci: apenas uma vaga lembrança de tudo se manteve. Consegui, suponho, lembrar… mas a fala… a essência do sonho se perdeu. Afinal, o sonho é o silêncio da mente. Tomado de esquecimento pensei que o meu corpo talvez lembrasse de algo… mas logo o mexi e ele também se esqueceu. Afinal, o movimento é o esquecimento do corpo. Nessa vida de esquecimento somos apenas reprodutores de memórias. Gravadores que repetem, que mexem e que trabalham. O trabalho é apenas uma forma de reprodução, não te engrandece em nada. É somente quando sonhamos… quando realmente raciocinamos que nos tornamos nós. Mas pensar é trabalhar. Raciocinar é diferente… raciocinar é agir e agir é Ser. Pensar é ter medo de raciocinar. Desculpe, Descartes… mas quando você trouxe o ponto arquimediano para a consciência, você matou o homem e criou máquinas. -Ciro Dafia — Discussão
Amor é Átomos se tornando Uma pessoa — Presentes
Liguei um vira-tempo à Terra Mas descobri que só parando Que ele virava |
O sábio vê o próprio olho
E reflete
As pessoas comuns veem uns aos outros
E murmuram